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Conheci o Zé Rodrix em 1985.
Ele era dono de uma produtora de jingles com o parceiro Tico Terpins e juntos se divertiam com o projeto Joelho de Porco e faturavam alto com jingles de grandes marcas. Era só piadas, bom astral e criatividade em brasa.
Ali, num estúdio próximo ao Mackenzie, de nome Audio Patrulha, a banda Tokyo que eu fazia parte foi recebida pela primeira vez. Ali foi criada “Humanos” e gravada a divertida “Mão Direita”, censurada logo depois, no lançamento do compacto pela gravadora Som Livre. Meus dezessete anos não me permitiram naquele tempo perceber o talento de Rodrix. Muitos anos depois fui morar no Sumaré e descobri que ele e sua linda família eram meus vizinhos de rua. Passei a vê-lo com mais frequência, sempre feliz, agitado, com pressa, com fome de criar e sempre cheio de projetos. Livro, peça, show, isso e aquilo. Ele estava radiante pois havia terminado o disco da filha Bárbara e dizia que iria me mostrar em breve. Acabei não ouvindo o disco com ele, como na letra de “Eu Quero Uma Casa no Campo”. Pena.
Mas o disco ficou. Sua obra ficou. Suas canções e sua criatividade ficaram e ficarão pra sempe.
Desejo força e paz para os entes que ficam, e muita luz pra alma do amigo Zé.
Adeus Zé!

E coloco abaixo um texto do Ruy Neto que gostaria de dividir com vocês.

Bom fim de semana pra todos!

Adeus a Zé Rodrix
(por Ruy Neto via Cultura UoD)

Na madrugada de quinta-feira o Brasil perdeu um de seus maiores compositores: José Rodrigues Trindade, o Zé Rodrix, do famoso Trio Sá, Rodrix e Guarabuira. Foi autor de músicas como “Casa no Campo”, famosa na voz de Elis Regina, “Mestre Jonas” e “Soy Latino Americano”. Rodrix participava de uma comunidade de compositores, o Clube Caiubi, grupo que conheço e do qual foi um dos maiores incentivadores. Mesmo não o conhecendo pessoalmente sempre tive grande admiração por Rodrix - uma das minhas músicas preferidas é “Nunca senti tanto medo de ser feliz” , interpretada pelo seu parceiro Sonekka e por Barbara Rodrix, filha dele. E faço este post-homenagem também para que os leitores desse blog lembrem de Rodrix com muita alegria e bom humor, da forma como ele queria no seu auto-necrológio que escreveu há algum tempo, em 2004, e que estava guardado com o jornalista Alan Romero, em Lisboa. O texto, depois do jump, provavelmente teria sido endereçado ao poeta Felipe Cerquize.

Felipe:
Em resposta a seu completissimo questionario passo-lhe às mãos minhas
especificações para passamento e eventual necrologio.
Há alguns anos, gostaria de ter a causa-mortis preferida de meu pai:
assassinado aos 98 anos de idade com um tiro dado por um marido ciumento que o tivesse pego em pleno ato… mas hoje nao mais. Pode ser de fulminante ataque cardiaco, dentro da minha biblioteca, perto o suficiente da familia e dos amigos mas afastado o bastante para que, alertados pelos cachorros da casa, ja me encontrem morto, com um sorriso nos labios.
Pode sepultar-me em pleno mar, sob a forma de cinzas, ja que nao poderei
ser sepultado in totum no jardim da minha casa. Se conseguirem isso, no
entanto, que nao cobrem entradas para visitação, à moda do irmão da princesa: deixem que alem das pessoas os passarinhos e os animais da casa se refestelem no lugar, renovando diariamente o eterno ciclo da Natureza.
Ao enterro devem, atraves de convite formal, comparecer todos que foram
aos meus lançåmentos de livro: nada mais parecido com um velorio do que isso.
Peço parcimonia nos efluvios emocionais: já as risadas devem ser francas e sem limite. Creio inclusive que prepararei com antecedencia uma fita de piadas gravadas para animar o velorio e manter o pessoal na boa. Como dizia o Bozo, “sempre rir, sempre rir….”
La so deixarei a mim mesmo: mesmo os inimigos que comparecerem para ter certeza de que estou realmente morto podem voltar para casa em paz. Nao pretendo puxar a perna de ninguem à noite e nem assombra-los depois de morto.
Já os amigos podem contar comigo: havendo vida após a morte, volto para
avisar, da maneira mais pratica e menos assustadora que me for possivel. A
cremação deve ser feita depois que todos forem embora cuidar de seus proprios afazeres: enfrentar as chamas do forno terrestre ja será um gardne introito para a vida eterna.
Se conseguir, tentarei ser crooner da grande Orquestra de Jazz do
Inferno, vulgarmente chamada de SATANAZZ ALL-STARS: como ja vou chegar la tenente ou capitão, dada a minha imensa taxa de maldades realizadas sobre a Terra, creio que nao será dificil. Meu castigo certamente será cantar MPBdQ por toda a eternidade, mas mesmo com isso ainda se pode encontrar algum prazer, assim na terra como no inferno….é o que veremos a seguir.
No enterro podem tocar de tudo, menos as musicas que eu tenha feito. Mnha
morte servirá certamente para que se livrem nao apenas de mim mas tambem de minhas obras. Os herdeiros tambem nao merecem ouvi-las, sabendo que nada herdarão de minha lavra, porque, sendo eu adepto da politica do VAI TRABALHAR, VAGABUNDO, como meu pai fez comigo, ja tomei providencias para que essas musicas nao lhes rendam nem um tostão furado. Sendo um velorio moderno, recomendo musicas de carnaval antigo, as indiscutiveis, claro, com algumas discretas serpentinas e confetes jogadas sobre o caixão, fechado, naturalmente.
Morrer num Sabado à tarde, ser enterrado num Domingo antes do almoço, e
estar completamente esquecido na manhã de Segunda, sem atrapalhar a vida
profissional de ninguem: eis a perfeição que desejo na minha morte.
Muito grato.
beijos
Z

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